quinta-feira, 28 de julho de 2011

Gigi Meroni. Um ídolo italiano do Best

Estrela do Torino morre atropelada por um adepto e futuro presidente do clube. No jogo seguinte, 4-0 à Juventus, com três golos do argentino Nestor Combin.
Gigi Meroni está a olhar, expectante, para a bola, no seu único jogo em Mundiais, frente à URSS, em 1966
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 






A mesma época, a mesma aura, os mesmos traços rebeldes, as mesmas convicções futebolísticas, a mesma posição em campo. Salvo as aparências, o extremo direito do Torino e da squadra azzurra nos anos 60, foi mais que a réplica italiana de George Best. Só não teve tempo para o provar. Morreu aos 24 anos, atropelado por um carro em Turim, num domingo à noite, a 15 de Outubro de 1967. Por muito que o tempo teime em passar, ninguém o esquecerá.

Estamos a falar de Gigi Meroni, um personagem diferente de todos aqueles que conhece. Nascido em Como a 24 de Fevereiro de 1943, Meroni rapidamente se destaca como futebolista da 2.a divisão, pela equipa da cidade natal, onde costumava mascarar-se de jornalista e perguntar a quem quer que passe por ele o que acha "de um tal Meroni que se está a dar bem no Como". Quando a resposta era negativa, por falta de conhecimento da matéria, o entrevistador ria-se descontroladamente e pedia mais detalhes. Outra das suas brincadeiras preferidas era vestir um maillot feminino e banhar-se no lago de Como; ou então andar pela cidade com uma galinha debaixo do braço. Mas sempre, sempre, com a barba de três dias e o cabelo desgrenhado. É o seu estilo. Livio Prada, o seu primeiro treinador nos seniores, ainda hoje não sabe em que posição Meroni jogava. "Eu dizia-lhe para ser o extremo-direito mas qual quê... O jogo ainda não tinha um minuto e ele já estava na esquerda, ou no meio, à procura da bola. Era um vagabundo. No relvado e fora dele."

Aos 19 anos, é contratado pelo Genoa, o clube mais antigo de Itália e o segundo maior em títulos de campeão nacional (9), só atrás da Juventus (12). O seu futebol encanta tudo e todos mas algumas das suas fintas são escusadas. Como esta, por exemplo. Na última jornada do campeonato 1962/63, é chamado ao antidoping mas recusa-se a ir, argumentando que deixou o frasco no hotel. Outros três jogadores do Genoa são "convocados" e acusam anfetamina. A Meroni, os dirigentes federativos suspendem-no por cinco jogos no início da época 1963/64 pela nega ao controlo. Em Maio de 1964, o passe de Gigi é vendido ao Torino por 450 mil liras e a cidade de Génova é tomada de assalto pelos adeptos do Genoa, descontentes com o negócio.

CORTAR O CABELO? NÃO! Em Turim, o estilo rebelde de Meroni encaixa-se na perfeição. Estamos a falar de uma época em que Torino quer restabelecer-se como força do futebol italiano, algo que se havia perdido em 1949, com o desastre aéreo de Superga, que mata toda a equipa tetracampeã italiana, e conhecida como o Grande Toro - curiosamente o piloto desse avião chamava-se Pierluigi Meroni mas não eram familiares.

Namorado de Cristiana Uderstadt, uma mulher casada (à sua revelia e forçada pelo pais, que não a queriam ver ao lado de um jogador de futebol e inventam uma união com Vittorio de Sica, assistente de realização), a vida de Meroni é uma montanha-russa de emoções. Pinta quadros, lê livros de filosofia, vai ao cinema... ah, e joga futebol. Com classe e determinação. Quer ser um extremo como George Best. "Um dia", conta Alberto Carelli, seu companheiro no Torino, "ele e Best cruzaram-se no aeroporto de Munique, porque nós íamos jogar a Helsínquia e o Manchester United a Dortmund. Mas Gigi viu Best, aproximou-se dele como se fosse o seu melhor amigo e no entanto nunca o tinha visto! Gigi era assim: espontâneo, bon vivant e maluco." E Meroni também se penteia como John Lennon, líder do seu grupo de eleição, os Beatles. O seleccionador italiano não lhe passa a mão pelo pêlo. Edmondo Fabbri convoca-o para um jogo com a Polónia em 1965, na condição de cortar "esse cabelo". Meroni acede ao pedido mas será a primeira e última vez. No Mundial-66, Meroni é suplente, contra a lógica. Autor de dois golos nos particulares com Bulgária e Argentina, o extremo é atirado para o banco na estreia com o Chile. Ainda joga com a URSS mas recusa-se a entrar em campo com a Coreia do Norte. "Fabbri era um homem com uma certa idade. Antes de cada jogo, punha-nos sempre a música do filme "A Ponte do Rio Kwai". E pediu ao Meroni que cortasse o cabelo porque se parecia com um cigano. Ele disse que não e... nunca mais jogou na selecção", conta Salvadore, o capitão dessa Itália eliminada na fase de grupos pelos amadores norte-coreanos.

JUVENTUS? NÃO!
No regresso a casa, os italianos recebem a selecção com tomates. Alguns atingem Meroni, o alvo mais fácil da hecatombe que obriga a Itália a fechar as portas aos estrangeiros para valorizar o produtor interno. Nesta relação momentânea de amor-ódio, o magnata Agnelli, presidente da Juventus, oferece 950 mil liras ao Torino por Meroni. O negócio está em cima da mesa, embora o jogador nada saiba. Os adeptos do Toro, esses, reagem com violência e fazem uma espera ao presidente do Torino na sua própria casa. Sem condições, Orfeo Pianelli vê-se obrigado a abortar a transferência e Meroni mantém-se no Torino, onde é carinhosamente apelidado de "beatnik do golo" pela sua forma anticonformista de estar no futebol e na vida. Em 1967, a 12 de Março, marca um dos melhores golos de sempre no campeonato italiano, ao Inter, em pleno Giuseppe Meazza. Não só finta o lendário Facchetti como ainda faz pouco do guarda-redes Sarti. O Torino ganha 2-1 e o Inter de Helenio Herrera perde pela primeira vez em casa para a Serie A nos últimos três anos! A lenda de Meroni cresce a olhos vistos. Até que o destino...

UM GELADO? SIM!
A 15 de Outubro de 1967, na ressaca da vitória sobre a Sampdoria por 4-2, Meroni e o companheiro de equipa Poletti jantam na Corso Re Umberto, uma rua em Turim perto da casa de Meroni. Depois do jantar, os dois convidam as respectivas namoradas para comer um gelado no outro lado da rua. Após o telefonema feito de uma cabine ali ao lado, Poletti e Meroni atravessam a rua de forma imprudente e vêem-se no meio das duas faixas. Um Fiat Coupe 124 vem de um lado e atropela a dupla. Poletti desvia-se no último segundo e sofre apenas um toque de raspão. Meroni é atingido na perna esquerda e atirado para a outra via, onde aparece um Lancia Appia que o arrasta por 50 metros. Meroni está inconsciente mas respira. Há esperança... que dura só até às 22h40, a hora da morte do irreverente extremo do Torino.

O Fiat era conduzido por Attilio Romero, um jovem de 19 anos, filho de um médico rico. O seu ídolo era Meroni. A fotografia do jogador estava estampada no tabliê do carro e o próprio Romero tinha o cabelo de Meroni. Após o acidente, entrega-se voluntariamente à polícia e é interrogado noite dentro, saindo em liberdade, directamente para a sua casa, 13 números à frente da de Meroni, na tal Corso Re Umberto - curiosamente, Romero foi presidente do Torino em 2000 e levou-o à falência em 2005.

UM GELADO? NÃO!
Mais de 200 mil pessoas vão ao funeral de Meroni mas nem aqui há descanso. A Igreja opõe-se ao funeral de um pecador público (por estar a namorar uma mulher casada, embora esta estivesse à espera dos papéis do divórcio) e pune o padre Francesco Ferraudo, que reza a missa sem dar cavaco à instituição. No fim-de-semana seguinte, há dérbi entre Juventus e Torino. E é aqui que o i entra em acção, para falar com Nestor Combin, o argentino que joga no Toro e marca três golos.

"Se não fosse o Gigi, não sabia o que seria da minha carreira. Ele resgatou- -me ao Varese, quando já poucos acreditavam em mim, e fazia-me sempre os passes e os cruzamentos mais incríveis", reage Combin, com a voz embargada. "Nesse dia em que ganhámos 4-2 à Sampdoria, eu marquei três golos. No balneário, estava todo feliz da vida, abracei-me ao Meroni e começámos aos pulos até que ele me disse ''bom, bom era que marcasses três à Juventus. Olha, queres vir comer um gelado comigo e com o Poletti?'' Era perito em mudar de assunto de forma desconcertante como o fazia em campo. Respondi-lhe que não, que queria ir para casa. Quando soube do sucedido, fiquei petrificado. Não me consegui mexer, perdi a noção do tempo, fiquei sem forças e adoeci. Fiquei febril e aquilo piorava de dia para dia. 38, depois 38,5, a seguir 39. No domingo seguinte [22 de Outubro], o jogo com a Juventus e estava com 39 graus de febre. Ganhámos 4-0 [a maior vitória do Torino no dérbi pós-Guerra] e eu marquei os três primeiros golos. O outro foi de Carelli, que vestiu a mítica camisola 7 do Meroni. Nunca mais me esquecerei desse dia, desse jogo, dessas emoções, dos socos para o ar nos festejos, dos festejos dos adeptos", conta Combin, de 71 anos.

A história não acaba aqui. Nem podia. Daí em diante, o Torino nunca perdeu no dia 15 de Outubro. Chamam-lhe o factor Meroni.

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